Favela é isso aí

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Oziel
Oziel

Trovas e Cordel
A literatura, a escrita e a leitura são as paixões de Oziel, um morador da Vila Califórnia que percebe a realidade através do universo poético.

Oziel Ferreira Vieira (30) é poeta e trovador há quinze anos. Sua trajetória na Literatura começou ainda na escola. Quando tinha quatorze anos, seu professor de Língua Portuguesa, Romualdo, percebeu o talento que brotava e se desenvolvia a cada redação entregue. “Um dia meu professor veio até a mim e me mostrou que o que eu fazia era simplesmente poesia”, conta Oziel. Na Escola Professor Clóvis Salgado, participou de um concurso, no qual conquistou o primeiro lugar. De lá para cá nunca mais parou.

Hoje sua obra é composta por 700 poesias, distribuídas em cinco cadernos. Seus textos são em forma de trovas e literatura de cordel. No cordel, Oziel escreve em sete estrofes, em uma estrutura mais curta, mas com começo, meio, sempre relatando um momento. As trovas abordam sentimentos de amor, paixão, tristeza, amizade, alegria, solidão, revolta e conjuntura política e relatam poeticamente fragmentos de sua vida e de acontecimentos na sociedade. Entre as admirações de Oziel estão Carlos Drummond de Andrade e escritores da Literatura de Cordel, como Mateus de Andrade. “Carlos Drummond é fascinante porque conseguia transportar a realidade do que ele via para o universo poético. Já os escritores de Literatura de Cordel têm a peculiaridade de contar histórias de maneira hilariante”, avalia.

Oziel busca incessantemente realizar o sonho de ter suas obras publicadas. Para isso, participa de concursos de poesia, os últimos foram: “Literatura para Todos”, do Governo Federal e outro organizado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) em que conquistou o segundo lugar. Por iniciativa própria, já publicou folhetos com poesias em homenagem a um amigo que foi assassinado, em 2001 no Conjunto Califórnia. Sua indignação era tão forte que teve a poesia naquele momento como válvula de escape para canalizar suas emoções.

O grande momento da obra do poeta aconteceu ao acaso, em 2004. Ele trabalhava de madrugada como vigia e era ouvinte do programa de Hamilton de Castro, na Rádio Itatiaia. No programa, as pessoas ligavam e realizavam participações, lendo uma carta e falando sobre sentimentos. Oziel venceu a timidez e decidiu ligar para o programa, para mostrar uma poesia. A partir desse dia, participava sempre do programa. “O papel do programa é dar visibilidade aos artistas, mas o mérito é todo deles”, diz Hamilton de Castro.

De acordo com Oziel, muitas pessoas ligaram para a Rádio, pedindo o telefone do “Trovador”, como ficou conhecido. Alguns ouvintes se tornaram-se amigos de Oziel, pela afinidade afetiva que desenvolveram juntos. O Trovador participou do programa de rádio até julho de 2005. “As amizades que a poesia me proporcionou durante a vida e durante o programa foram sempre muito verdadeiras. Acredito que pelo fato de ser tímido, consigo mostrar minhas emoções mais facilmente no papel”, afirma. As poesias de Oziel, que assina também como “Lobo Solitário”, hoje são publicadas no Jornal do Conjunto Califórnia, que tem periodicidade bimensal.

Na trajetória de escritor, ele enfrenta algumas adversidades como a falta de apoio e oportunidades para publicar e registrar as poesias, trovas e contos. “Não há portas abertas para a produção literária, principalmente para nós moradores de favelas. O concurso Prosa e Poesia no Morro, organizado pela ONG Favela é Isso Aí, vai na contramão desse processo e abre uma oportunidade de divulgação para as pessoas que não têm”.

Dinheiro ou fama não estão em seus planos. A satisfação pessoal vem em primeiro lugar, juntamente com as amizades que fez através da poesia. Ele enxerga na produção literária um caminho para alcançar a paz interior: “Eu posso estar num momento de revolta, raiva e incerteza, mas quando pego a caneta e o caderno esqueço de tudo. Me fecho num mundo de paz que é só meu”, explica. O Trovador recentemente desenvolveu mais um trabalho, a história infantil “Pluf – O Pequeno Coelhinho”, elaborado com ilustrações próprias, para presentear os três filhos. Apesar de ser uma paixão a poesia não garante o sustento de Oziel que trabalha como eletricista metalúrgico.

Oziel avalia que a leitura, que para ele é um prazer, infelizmente ainda não é um hábito entre os brasileiros. “Isso contribui para o crescimento da violência, da incompreensão, para o rompimento das famílias e para a falta de conhecimento, de modo geral, repercutindo até mesmo na política. Uma pessoa que não tem informação não tem condições de escolher o melhor candidato nas eleições. Poderiam ser tomadas iniciativas de divulgação das bibliotecas públicas, através de campanhas mostrando o que elas oferecem. Uma sociedade que tem acesso à cultura, vive com muito mais paz”, conclui.

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